O vagueador

quinta-feira, janeiro 22, 2015


Ele apareceu às 7 horas da noite, enquanto eu preparava o jantar. A campainha tocou, quando abri me deparei com ele, vestido com a camiseta branca que eu adoro e com aquela barba por fazer.
Eu me queixava mentalmente da sua ausência. A gente precisa mesmo aceitar que algumas pessoas nasceram com o espírito livre, feitas para não se apegar a nada. Se é justo eu não sei, só sei que era doloroso pra mim vê-lo entrando por aquela porta de noite, saindo pela manhã e só voltando dias depois. Ele tinha esse dom de entrar, bagunçar minha cama, minha vida, e ir embora sem nem pedir desculpas. Culpa era uma palavra que não cabia no seu vocabulário de vagueador do mundo. "No regrets", ele tinha tatuado nas costas. E, apesar de toda essa esquiva, eu o amava. E como amava. Amava o jeito que ele saía sorrateiramente de madrugada pra ir ao banheiro, sem fazer barulho para não me acordar. Amava quando ele fazia uma de suas receitas veganas pra mim. Amava ouvir ele falar dos lugares que foi com sua mochila Nautika. Ele tinha na cabeça todos os questionamentos comuns de um rapaz de 25 anos. Ele parecia querer encontrar a linha que separa o sol e a lua. Estava sempre tentando buscar um sentido, uma solução. Eu também.

Quando eu abria a porta pra ele entrar, a saudade saía pela fresta. Ele chegava com aquele sorriso torto e aquelas gírias e me quebrava no meio, feito um galho de goiabeira. Ele elogiava o cheiro do meu cabelo, me trazia um baseado e eu fingia que era aquilo que eu queria, que era aquilo que me bastava. Eu tenho esse jeito louco, mas a verdade é que dessa vez eu queria me rasgar, me decompor, me dissolver e me fundir nele. Não só de maneira carnal. Será que era tão difícil assim enxergar? No aniversário dele eu dei de presente uma barraca de camping para duas pessoas, um exemplar de Walden e junto coloquei um cartão com um trecho de "Better Togheter", do Jack Johnson. Mas, acho que ainda assim não ficou tão claro.

E depois que ele foi, nada ficou. Sobrou a voz embriagada do Amarante tocando na radiola, as pontas jogadas pelo tapete e o café esfriando na caneca. Meu coração, que tento manter congelado, começa a derreter e a água escorre pelos meus olhos aos poucos. E eu vou dando meus passinhos pequenos que nunca te alcançam. E me lembro sempre de nunca perder a mania de sonhar. Aprendi com você, lembra? Sinto falta da sua presença. Sinto falta de mim mesma nessa cidade. Te pedir pra ficar seria egoísmo.
Voa! Mas vê se não demora dessa vez.


» imagem | dylan forsberg

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2 comentários

  1. O texto é magnífico, mas não sei se eu conseguiria encarar um relacionamento que acontecesse dessa forma. Sou dependente de mais, por mais que eu tente fazer e dizer o contrário.
    Um grande beijo

    http://vidasempretoebranco.blogspot.com

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  2. deu até um aperto no peito...meu vagueador conheceu outra pessoa e deixou de ser vagueador...dificil quando isso acontece e agente fica se perguntando o que fizemos de errado né?

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