Lembrar dói

sexta-feira, janeiro 09, 2015


Ela se sentou no parapeito da janela de pijama, viu que o céu estava estrelado, do jeito que ela amava. Se transportou para o nostálgico ano de 2009. E ela daria tudo, tudo, para voltar para pelo menos um dia dos seus 15 anos. Não para poder transformar e mudar o que aconteceu, mas para viver tudo exatamente da mesma forma. Porque foi nessa tenra idade que ela o conheceu, com seu jeito de quem olhava e pensava mil coisas, mas não queria dizer nada para não doer. Porque ele via que ela sofria, mas o apego não a permitia mudar.
Ela se segurou na grade do sexto andar pra não cair da nuvem imaginária em que se encontrava no momento. Olhou pra baixo, via os carros em várias cores passando, os letreiros vermelhos e amarelos da cidade, os anúncios colados nos muros pichados. E bateu uma nostalgia daqueles encontros, despedidas e reencontros que aconteciam todos os dias no ponto de ônibus da avenida. Foi tão real que ela pode até mesmo sentir o perfume que ele usava quando se conheceram: Gap Bold.
A brisa fresca que entrava no apartamento minúsculo passou a se assemelhar com aquela que passava pelo bairro alto onde iam se perder do mundo. E ela começou a se sentir tonta. Foi para o banho, e ao escrever o nome dele no box embaçado de vapor percebeu que há muito tempo não escrevia aquele nome em letra de mão. E notou o quão longe, estranho e distante aquelas letras se tornavam quando estavam juntas.
Ela já estava ofegante com o calor que fazia no banheiro de janela mínima que dava pra área de serviço. Chorava, e não sabia distinguir mais o que era lágrima salgada escorrendo e o que era água do chuveiro descendo por seu rosto. Lembrou, lembrou de tudo. E percebeu que lembrar doía. Ainda mais quando não se tem a pessoa ao lado para lembrar com você.


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2 comentários

  1. E eu senti a minha vida aqui nesta postagem... Conviver com as lembranças intensas da vida é ir ao céu e ao inferno ao mesmo tempo. Com o tempo, porque apenas o tempo afasta as memorias, elas ficam aqui guardadas no coração, mas há momentos em que elas surgem e parecem que não vão mais embora... Nunca vão, apenas ficam adormecidas dentro de nós. Eu também viveria tudo do mesmo jeito que no passado, viver o agora é muito triste, parece não haver vida como antes...

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  2. Lendo o texto lembrei de uma fase da minha vida no ensino médio, primeiro amor, lágrimas, decepções. Mas a vida é assim, nada é do jeito que queremos e sinceramente eu não me arrependo de ter ido adiante por que não teria valido apena, ele nao era o certo, mesmo que o idiota do meu coração falasse o contrario.

    www.garotadosuburbio.com

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