Em primeira pessoa

quarta-feira, setembro 24, 2014


A casinha dos meus sonhos

Se eu pudesse desligar o barulho da cidade, assim como faço todas as manhãs o barulho do chuveiro cessar com o girar a torneira, tudo seria melhor. Hoje tentei enxergar a lua cheia da janela do ônibus, mas só conseguia vê-la através das frestas que os prédios deixavam entre um e outro. Ela "corria", como se também tentasse me ver, me procurava, me buscava. É verdade! Agora deixa eu falar. Deixa eu falar em primeira pessoa. Deixa?

Hoje bateu uma tristeza simplória e uma decepção pequenina, ao ver o ipê rosa da faculdade ficando despetalado, sendo que eu nem tinha ainda me deitado debaixo dele para apreciar. O mundo com aquele menino do lado tinha cores, mas nem ele por perto eu tinha mais. Eu pisquei e perdi tudo. Perdi as flores, os amores e a lua. E meu corpo nunca mais dançou no quarto, sozinho, ouvindo aquelas músicas que tocavam na Malhação. É bobagem, eu sei que é bobagem, mas crescer nessa selva concreta, de concreto, é doloroso. "Feliz aniversário, envelheço na cidade.". Essa letra me soa triste e angustiante. Britadeiras, motosserras, a violência das escavadeiras e a delegacia. Natureza versus avenida. E uma alma aprisionada. Pássaros? Aprisionados também.

Desculpe a verborragia, mas você tinha concordado em me deixar falar em primeira pessoa, certo? E não é sempre que se tem essa oportunidade. Oportunidade de dizer que a única melodia que quero para meus ouvidos é a do barulho da chuva caindo mansamente, passivamente. Passando. E somente o sereno, me asserenando a alma e me fazendo escrever trocadilhos de palavras como esses. Desejo nada mais que o oco e o eco das paredes da casa, rodeadas de um matagal infinito e fresco. Um labirinto de imagens mentais, onde eu possa meditar e me perder. E tempo para poder fazer isso. Quero apenas um pouco de Alberto Caeiro e menos fumaça de cigarro. Por favor, é pedir demais? Aqui encero meu discurso em primeira pessoa. E continuo com os mesmos desejos incompletos. Agradeço os ouvidos de ouvir.

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2 comentários

  1. Incrível como eu amo o teu blog! Fico mega feliz quando vejo postagens novas e super me identifico com os temas que você trata aqui. Ah, o texto ficou lindo (adorei o título!) e tenho o mesmo sentimento. Às vezes é preciso desacelerar e se desligar dos barulhos que nos rodeiam para que possamos apreciar o que muitas vezes nos passa despercebido e para que as coisas façam mais sentido, né? :)
    Um beijo!

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  2. Ahhhhhhh que texto lindo! Não podia deixar de comentar hahahaha Eu moro na capital de SP e é uma loucura total, tipo total mesmo. Agora estou me mudando para o interior de SP e, mesmo que lá não seja tão pequeno assim, ainda sim é menor e não tem toda essa loucura daqui. Dá pra escapar da cidade e se perder nos campos verdes que a estrada por esse mundão a fora proporciona. Confesso que fiquei com receio e chateada de sair de São Paulo, a tal cidade que nunca para, que sempre tem lugar pra ir etc mas agora estou acostumando com a ideia, ainda mais com esse texto seu. Deu vontade de fugir da cidade agora mesmo! hahaha
    Beijossss <3

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